Minha relação com a poesia vem de longa data: 1987, para ser exato. Eu tinha apenas nove anos. Apesar da idade, gostava de assistir ao “Jornal Nacional” com meus pais. Em 17 de agosto daquele ano, Cid Moreira anunciou a morte do poeta Carlos Drummond de Andrade. A leitura de — No Meio do Caminho e, ao final da homenagem, — José despertou em mim algo que nunca mais me abandonaria. Na manhã seguinte, peguei um caderno e comecei a escrever.
Os primeiros poemas falavam de árvores, pássaros, do meu cachorro — um pequinês chamado Maique — e do mar, que desde cedo ocupava um lugar privilegiado no meu imaginário. Entre essas primeiras tentativas havia até mesmo uma pequena série intitulada “Super Cão Maique”, em que meu companheiro de quatro patas vivia aventuras ao meu lado. Também escrevia sobre gaivotas, ilhas e horizontes distantes, símbolos que ainda hoje permanecem em minha poesia.
Na escola onde estudava, a EEPG Prof. Tokuzo Terasaki, algumas professoras descobriram meus poemas e inscreveram-me no I Festival de Poesias da Prefeitura de Suzano. A poesia apresentada chamava-se “A Ilha”, e adotei como nome artístico “O Marinheiro”. Meus pais fizeram-me ensaiar exaustivamente, em pé sobre uma cadeira, como se aquele pequeno palco improvisado pudesse preparar-me para o auditório lotado que encontraria. Confesso que, diante do público, travei por alguns instantes, mas consegui concluir a apresentação.
Ao longo de mais de três décadas, devo ter escrito mais de mil e quinhentos poemas. Hoje mantenho catalogados mais de oitocentos. Alguns foram destruídos durante um período depressivo; outros se perderam porque existiam apenas em arquivos digitais que desapareceram com o tempo. Outras ainda estão perdidas em caixa, gavetas e agendas que preciso revisitar.
Sempre escrevi onde fosse possível. Agendas, folhas soltas, pedaços de papel e guardanapos serviam de abrigo para os versos quando a inspiração surgia. Um dos poemas de que mais gosto, “Réquiem para um Pesadelo”, nasceu justamente em um guardanapo durante um almoço.
Minha escrita nunca seguiu uma rotina rígida. Houve períodos em que passei meses sem escrever uma única linha e outros em que produzia dezenas de páginas em poucos dias.
Apesar dessa produção intensa, nunca pensei seriamente em publicar. Durante muitos anos, apenas minha mãe sabia que eu continuava escrevendo, além de uma ou outra paixão que recebia poemas quase diariamente. Foi somente em 2023, durante uma noite de insônia, navegando pela internet, que encontrei o edital da Editora Arame Farpado para a antologia Versos que Sangram. Lembrei-me de Réquiem para um Pesadelo e o enviei sem qualquer expectativa. O poema foi selecionado, e foi ali que uma nova etapa da minha trajetória começou.
Desde então, fui selecionado para mais de uma centena de publicações entre antologias, revistas literárias, concursos e coletâneas. Participei de certames nacionais e internacionais, especialmente em Portugal. Também publiquei textos em italiano e escrevi um tango em espanhol. Vieram algumas premiações — primeiros, terceiros, quintos e sétimos lugares —, assim como muitas rejeições, parte inevitável da caminhada de qualquer escritor.
Hoje compreendo que nunca escrevi em busca de reconhecimento. A poesia sempre foi minha forma de atravessar o tempo, preservar a memória e dialogar com aquilo que permanece invisível. Minha escrita habita os territórios da existência, da melancolia e da contemplação, aproximando-se da tradição filosófica, simbólica e gótica sem perder a dimensão humana. Entre ruínas, mares, silêncios, cidades e lembranças, continuo perseguindo o mesmo menino que, aos nove anos, ouviu Drummond pela televisão e descobriu que algumas palavras são capazes de mudar uma vida inteira.
Atualmente tenho dois E-Books publicados pela Amazon, Atlas do Abismo e “poesia urbana”.
Agradeço imensamente a todos os amigos e leitores que me seguem.
Um forte abraço
Marcolongo Ricardo
Suspiro
Há 9 anos

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